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Segunda-feira, Outubro 25, 2004


Índio Chiquita

Toda cidade tem seus artistas de rua. Quem frequentava o centro de São Paulo na década de 1990 deve se lembrar de uma figura que se apresentava na Praça Ramos. O Índio Chiquita (ou Índio Chiquinha, como também é conhecido) vestia uma calça boca de sino com desenhos de índios norte-americanos, usava duas trancinhas e dublava músicas do Raul Seixas.
Ele sempre se levou muito a sério, durante suas apresentações ninguém podia falar, rir, ou coisa do gênero, que ele sempre fazia o seu famoso discurso de respeito aos artistas brasileiros. Quem já viu sabe do que eu estou falando.
Poucos amigos se lembram do Chiquita, só o Pedro, também frequentador do centrão, que de vez em quando lembrava de uma história com o figura.
Na primeira semana após me mudar para Brasília fui tomar um mate gelado no Setor Comercial Sul, o que seria um centro da cidade versão capital federal, e o inacreditável aconteceu. O Índio Chiquita de repente aparece, desta vez com repertório novo e uma caixa de som idem. Quase morri de susto. Estaria eu na cidade errada?
A sorte é que eu estava acompanhada, caso contrário eu mesma não acreditaria que aconteceu de verdade. Eu antecipava para o Biu o que ia acontecer durante a apresentação, discretamente, claro, o Chiquita não podia perceber. Impressionante, a gente se muda, mas certas coisas não. A propósito, o Chiquita continua usando a mesma calça e as trancinhas, mas seu cabelo já está grisalho.


Quarta-feira, Outubro 20, 2004


Eu, tiete

Assisti a um programa neste fim de semana sobre tietes e as bobagens que esse tipo de gente faz. É fácil falar quando é com os outros, mas de repente me lembrei de que eu já tive (aliás tenho) meus momentos de tiete. É só eu me lembrar que na minha coleção de discos mais de 30 são do David Bowie.
Ainda tenho em casa um caderno especial que saiu na Folha na primeira vez que o Bowie veio para o Brasil, em 1992. Acha pouco? Quando finalmente consegui ir num show dele, em 1997, fiz tudo que uma fanática tem direito. Fiquei no gargarejo gritando o nome dele, estava com uma camiseta com a foto dele...
Num certo momento do show ele jogou um balão do cenário na platéia, eu vi aquele olho enorme vindo em minha direção e não tive dúvida: meti a mão e arranquei um pedaço. Sim, eu tenho um pedaço do balão tocado por ele, talvez até um pouco do seu DNA. Ai ai... Duvida? Passa lá em casa que eu te mostro.
Nesses dias estava numa sala de bate papo em que falavam sobre jornalistas tietes. Um cara contou que foi para um desfile na Inglaterra e na sala de espera topou com o Mick Jagger e Sra. e com ... David Bowie e Iman! Ele disse que se portou como se nada estivesse acontecendo. Eu no lugar dele não conseguiria me controlar, começava a chorar na hora e a gritar eu te amo. Ainda bem que esse tipo de coisa só acontece com quem dá conta do recado, afinal de contas preciso manter minha dignidade também.


Segunda-feira, Outubro 18, 2004


Francis Bacon


Painting


O pintor, não o filósofo.


Terça-feira, Outubro 12, 2004


Uma pequena diferença




"Você já foi num enterro de anão? Você conhece alguém que foi em um? Ou alguém que conhece alguém?" Essas são as perguntas que meu amigo Benjamin usa para provar sua teoria de que os anões são ET's e de que eles não morrem, voltam para seu planeta natal.
Todo mundo que tem uma idéia inusitada para uma vídeo, texto, piada ou qualquer coisa do gênero, pelo menos os que têm contado suas idéias para mim, põe sempre um anão no meio da história. O certo é que eles não são mesmo comuns (eu não conheço nenhum e nem conheço ninguém que conheça algum o suficiente para considerá-lo um amigo ou algo assim) e tudo o que está fora dos padrões considerados normais traz desconforto e acaba sendo tratado com assombro ou gozação.
Se você ligar a TV hoje vai encontrar um anão numa gincana para adolescentes ou num programa infantil na óbvia função exercida por eles: palhaço (ou bufão, ou bobo, como preferir). Li há pouco tempo o livro "O Tambor", de Gunter Grass, que conta a história de um homem, Oskar Matzerath, que decidiu parar de crescer aos três anos de idade e chega à vida adulta com um corpo de criança. É apenas mais uma das inúmeras histórias sobre anões da literatura universal, a mais interessante que eu li, e mais uma que fala do mundo de fantasias que envolve essas pessoas.
Fico pensando no quanto é difícil ser alguém diferente e na quase impossibilidade dessas pessoas terem uma vida normal se não quiserem seguir a carreira artística. O cineasta Chico Teixeira tratou desse assunto com muita delicadeza no seu curta-metragem "Criaturas que nasciam em segredo", de 1995 (em cartaz aqui no blog). Seu documentário fala das funções exercidas pelos anões ao longo da história, principalmente nas cortes, e é recheado de depoimentos que, com certeza, ajudam a desmistificar o universo dessas pessoas. O que torna esse filme ainda mais interessante é o fato de a maior parte dos personagens não ser de artistas.
Ver o filme, ler o livro, quem sabe não seja o caminho para encarar as diferenças com menos estranheza.

(texto escrito em agosto/2002 para algum fanzine que nunca chegou a ser feito)


Segunda-feira, Outubro 11, 2004


Um pouco de Caio



- Você tem um cigarro?
- Estou tentando parar de fumar.
- Eu também, mas queria alguma coisa nas minhas mãos agora.
- Você tem alguma coisa nas mãos agora.
- Eu?
- Eu.
Silêncio.
- Como é que você sabe?
- O quê?
- Que o menino vai se matar?
- Sei muitas coisas.
- Eu não sei nada.
- Te ensino a saber. Não a sentir. Não sinto nada. Já faz tempo.
- Eu só sinto, mas não sei o sinto. Quando sei, não compreendo.
- Ninguém compreende.
- Às vezes sim. Eu te ensino.
- Dificil. Morri em dezembro. Com cinco tiros nas costas. Você também.
- Também. Depois saí do corpo. Você já saiu do corpo?
(...)

O dia que Júpiter encontrou Saturno, Caio Fernando Abreu


Quarta-feira, Outubro 06, 2004


A saga da seca

Há muito tempo atrás, quando me falavam que Brasília tinha um clima de deserto, com um calor insuportável e seco durante o dia e frio à noite, eu tentava imaginar como seria isso. Não pensava muito, porque não imaginava que ia acabar morando aqui.
Depois de muitas voltas, o mundo acabou me trazendo pra cá, o que foi bom, e enfrentar esse clima desconhecido, o que está sendo um horror. Como boa paulistana, tenho rinite alérgica, que sempre acaba numa sinusite. Como lidar com sensação térmica de mais de 30º, como uma humidade de menos de 10%? Cansaço, nariz em estado catastrófico e três visitas ao pronto-socorro, esta é a contabilidade deste final de inverno.
Apesar disso, a cidade fica com um aspecto muito bonito, o por do sol tem inúmeros tons de violeta, os ipês florescem com uma força sexual, as paineiras deixam o chão repleto de plumas (pareceria uma nevasca, não fosse o calor infernal). Mesmo assim meu mal estar não passa, pra completar agora começa a fase das cigarras, elas se acasalam pouco antes de voltar a chover e fazem um coral ensurdecedor (estou falando sério!), parece uma rave que não acaba nunca.
Tudo aqui é extremo, sei que quando começar a chover serão quatro meses encharcados e embolorados, que eu hoje espero ansiosamente, mas que vai encher o saco rapidinho. Pode ser que eu me acostume com isso tudo, por enquanto estou tentando me fixar nas belezas locais que são muitas. O cerrado é muito bonito e eu nunca tinha visto um céu como o daqui. Agora explica isso pro meu nariz!


Por do sol típico da seca


Terça-feira, Outubro 05, 2004


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Assisti ontem Declínio do Império Americano, que poderia ser conhecido hoje como Invasões Bárbaras - parte I. Mesmo senso de humor, com os mesmos atores 18 anos antes. O filme é de 1987.
Com esse nome, lembrei de uma entrevista que vi no Provocações, em que o jornalista (não me lembro o nome) dizia: "o império está caindo, já ouço os rumores". E isso nada tinha a ver com a queda das torres gêmeas.
O filme começa com uma personagem defendendo sua tese de que quanto pior vai a sociedade, mais egoístas ficam as pessoas. Falando de sexo o tempo todo, o grupo de amigos intelectuais acabam provando essa, entre outras teorias.


Segunda-feira, Outubro 04, 2004


Alcoólicas (trecho)

Hilda Hilst

Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d'água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.

publicado originalmente em "Do desejo".


Domingo, Outubro 03, 2004


Passado

Pensar no passado é um meio estranho de entender o presente. Estranho porque às vezes dói. Crescer sempre é dolorido e doloroso.
O que parece mais estranho é que somos sempre fruto do que já passou, mesmo quando não há nada do presente que remeta ao passado. Mas sempre há.
Por isso existe a História. É por isso que tiramos tantas fotografias de eventos que não significam nada pros outros. Medo de esquecer o que o momento significa, porque disso é feita a vida.