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Quarta-feira, Fevereiro 23, 2005


Arnaldo Baptista fala de Let It Bed, de ciência, dos fãs e do futuro.

(Entrevista via telefone, conexão Londres-Belo Horizonte, novembro de 2003 e janeiro de 2004)
Extraída do site www.arnaldobaptista.mus.br

Só depois de um certo tempo gravando alcancei o know how do que eu estava fazendo e pensei: não acredito que estou fazendo algo tão bom. Como diziam os Beatles: with a little help of my friends. Esta ajuda tem sido muito importante nos últimos tempos.
Quando ouvi tudo depois de produzido foi uma espécie de "total caixinha de surpresas". Fizeram de uma forma que o rendimento ficou ótimo: tipo one man band. Outro lado interessante foi o pragmático da letra. O fato de eu ter à minha volta pessoas tão diversas, em termos de filosofia e ideologias, me levou a criar letras na hora buscando um espírito de total conexão.
Também percebi algumas modificações, de falhas no meu instrumental no sentido de buscar uma performance melhor, experimentar mais. Mas o principal mesmo foi o amor: eu posso ter tocado todos os instrumentos neste disco, mas o principal foi ter tocado com amor.

Por trás de algumas canções de Let it Bed:

Gurum Gudum: Tem a ver com minha memória, meu avô que tinha 14 filhos, era coronel e construiu o próprio violão. Há muitos anos ouvia o vovô entoar uma música que decorei - pode ter sido uma música antiqüíssima, ou do folclore, ou que ele criou na hora. Então tinha esta parte que encaixei em "Gurum Gudum". Ele falava de ter uma vida rural e foi isso que tentei colocar na música.

To Burn or not to Burn: Essa música é meu lado de contrabaixista aparecendo com mais destaque: a frase (base) foi a que bateu mais forte no meu coração. A motivação da letra, da filosofia ou o que for chamado - "To Burn or Not to Burn. What is the Question? What?", tem a ver com Shakespeare: literatura inglesa, teatro e rock'n'roll.

LSD: Esta tem a ver com Bach, que minha mãe gostava muito. Na época dele era difícil encontrar um órgão: Bach andava 15 quilômetros até a igreja para poder tocar um órgão. Esse foi o lado que me motivou, porque Bach compunha música para ícones e deuses. E "Louvado Seja Deus" também combinou com LSD, que tem a ver com "Lucy in the Sky with Diamonds", de endeusar-se algo, de alguma coisa que se adora.

Deve Ser Amor: Depois de um dia de trabalho árduo penso o que me levou adiante e às vezes acho que foi o amor que me motivou. Seja errado, seja certo, seja pesquisa: no sentido de que o rock pode ser forte ou fraco. Depende do amor que a gente sente quando está fazendo.

Encantamento: Nessa coloquei um lado meu science fiction e fala de um ser de duas cabeças em um corpo - pensamentos diversos habitando um mesmo corpo. Existe uma tentativa de vida no lado de hibridez em que predominam a fome, a ânsia de saber e a satisfação acima de tudo. Tem ainda Cacilda, que fiz há 22 anos.

Ai Garupa e Tacape: Eu já viajei de moto por todo o mundo. Essas músicas antigas vieram da bateria, o ritmo pulsante dos quilômetros, a vida, as emoções, as novidades: Born to be Wild. Imagino já é totalmente diferente, mas tem também o lado science fiction, em que a morte entra com um sentido bem mais profundo, em que as coisas místicas são substituídas por pensamentos e da pessoa que vive depois da morte sozinho e só: ser amado sem ter sexo, ouvir sem ter ouvidos, sentir cheiro sem nariz. É como uma entidade que alcança a eternidade, que pode ser encarada como uma coisa comum a todo mundo ou então uma parte muito ousada do ser humano: de ser eterna através do DNA.

Carrossel: Esta traz um lado meu de estudos de piano com parque de diversão. Esta mesma frase faz parte do "Emergindo da Ciência" (música de 1978).

Tacape: Tem a ver com pedra lascada, origem das espécies, Darwin. A origem das espécies se confunde com o lado de helicópteros: às vezes as pessoas andam em um helicóptero com todo aquele poder de bombas atômicas na mão e sentem uma certa necessidade de mostrar como um tacape, de se enfrentar com um tigre, que às vezes é mais perigoso que enfrentar Nova York com um helicóptero. Mas fica assim: um paradoxo entre a cultura atual e a da pedra lascada.


Quinta-feira, Fevereiro 17, 2005


Um presente do André

Gosto muitíssimo desta charge (é realmente uma charge?). O Quino é genial. Obrigada, André:


Segunda-feira, Fevereiro 14, 2005


Quesito originalidade

Propaganda de piscinas no Distrito Federal:

"Vitor Piscinas. Porque piscina é a nossa praia."

Endendeu? Entendeu?


Sábado, Fevereiro 12, 2005


...

Cena 1:
Caminho pelo Conjunto Nacional calmamente e vejo dois caras por volta dos quarenta anos bebendo cerveja e olhando pruma parede.
Loja Tentação, poster gigante com uma atriz global.
Um comenta para o outro:
- Essa boquinha é demais, não é não? Eu com uma boquinha dessas...
O outro responde meio sem empolgação, mas sem querer decepcionar o colega:
- Hum hum.

Cena 2:
Saio pensando em como alguém gasta seu tempo desta maneira.
- Será que ele é feliz assim?

Fim do primeiro ato.

Cena 3:
Estou em casa contando a história para o Biu, que me solta o seguinte:
- Isso só comprova a teoria de que o homem quando chega em certa idade tem que escolher entre a celulose e a celulite. Parece clara a escolha do fulano.

Acho que isso encerra o assunto.

Fim do segundo ato.


Sexta-feira, Fevereiro 11, 2005


Afogando em números

1 e 2 namoravam. Eles eram amigos de 3 que namorava 4. Neste tempo 5 nem existia naquele lugar.
1 e 2 formavam um casal modelo, admirado por todos. 3 gostava daquilo e quis.
E conseguiu o que quis. 2 e 3 viraram um casal. 1 e 4 ficaram a ver navios, mais ou menos isso. Pode ter sido um alívio também.
Algum tempo depois 5 apareceu e conquistou a simpatia de muitos, na seqüência o amor de 1.
Neste momento a simpatia se transformou em apatia, pelo menos por parte de 2, que sempre deixou clara sua aversão àquele novo casal. 1 e 5. Igual a seis, os enamorados no tarô.
3 e 2 são um casal assumidamente monogâmico, mas 3, que não é de ferro, se diverte com 6, 7, 8...
Hoje vivem 2 (6, 7, 8...) e 3 um romance tórrido e fiel. 1 e 5 na mesquinhez da felicidade pessoal. 4 e 44, do qual ainda não falei, esperando um lindo bebê.


Quinta-feira, Fevereiro 10, 2005


Carnaval da morgação

Com uma dor de cabeça incessante, fruto de uma sinusite que se arrasta desde dezembro, passei o carnaval todo em casa comendo e assistindo tv. A boa é que assisti uma tonelada de filmes (minha conta na locadora deve estar nas alturas) e comi muita coisa boa.
O único agito foi no sábado, com direito a Bar Brasília, Sound System no Parque da Cidade e docinhos no Petit Prince. Depois de três dias o tédio já tinha se apossado da casa e o clima ainda não está dos melhores.
Agora sim, que preciso dar um tempo de Brasília. As opções são Goiás Velho ou Sampa, dependendo do que role até o fim do mês.
A dor de cabeça continua, a sinusite ainda não se foi, mas acho que o cansaço de dois anos sem férias tá quase no fim. É só começar tudo de novo. Realmente o ano só começa no carnaval.


Sexta-feira, Fevereiro 04, 2005


Numa cidade histórica de Minas (texto requentado do antigo site Eu Teria Vergonha. Faz tempo...)

Quando vamos a uma cidade e percebemos que seu ritmo nos incomoda profundamente é muito provável que esta viagem seja uma grande oportunidade de descobrir mais sobre o lugar de onde viemos. Para uma paulistana como eu parece inconcebível ouvir num café que vai ter que esperar para ser atendida. Isso estressa profundamente.
Conhecer uma outra cidade, uma cidade histórica de Minas, por exemplo, pode ser uma experiência muito interessante, pois através do contraste entre a realidade da qual viemos e da nova que experimentamos podemos verificar o que esperamos de cada pessoa. Ter esta percepção é como se olhar de fora para dentro.
Poucas vezes conseguimos nos manter equilibrados quando se frustram nossas expectativas. Nesta viagem, as poucas vezes que eu fui mal atendida, dentro da minha percepção, é óbvio, eu não esperei ou arrumei logo algo para fazer que me ocupasse o tempo. Percebi que vários paulistanos ou paulistas sentiram a mesma coisa que eu. Somos obrigados a nos adaptar ao ambiente em que estamos para não entrar num processo de frustração constante. Ser influenciado pela energia do lugar e se desprender de alguns valores é indispensável para que isso aconteça.
O paulistano vive um cotidiano tumultuado, que exige muito movimento e energia. Nós não temos tempo para parar e observar nossas próprias reações e a nós mesmos. Estar num ambiente em que se é obrigado a fazer isso pode proporcionar momentos inesquecíveis. Coisas simples, como curtir cada instante e perceber a paisagem a sua volta ou o passarinho que canta. Simples para quem permite que aconteça.

Vontade de viajar... Texto escrito em agosto de 1999


Quarta-feira, Fevereiro 02, 2005


Este mês no Documenta (sinopses do Portacurtas)


Quero ser Jack White

Dedicatórias - Mulher solitária procura o amor através de dedicatórias amorosas de livros antigos.
Viver a Vida - O caos e a realidade da vida na crise do início dos anos 90, no cotidiano de um office boy paulista.
A Incrível História da Mulher que Mudou de Cor - Mercedes é uma jovem e sonhadora empregada doméstica. Certo dia, algo estranho acontece: de negra que é, ela se torna branca. Esse acontecimento sobrenatural talvez seja a única possibilidade de mudança efetiva na vida de nossa pobre empregada, que não tem qualquer perspectiva de crescimento, envolvida desde antes de nascer na dinâmica social brasileira de exploração e ignorância.
Soda Sexo - Se o sexo é a coisa mais importante na sua vida, NÃO consulte um psicanalista.
Quero ser Jack White - Numa tarde de verão paulistana dois adolescentes se encontram por acaso numa loja de vinis. A partir deste encontro eles irão descobrir a sexualidade ao som de rock n´roll.



Escrito por um amigo

"... hoje descubro nas pessoas mais simples a minha vontade de existir".


Terça-feira, Fevereiro 01, 2005


Vomitar

Voltando à escatologia, que já foi um dos temas há algumas semanas, falo agora sobre vômito.
Precisamos vomitar quando algo está fazendo mal ao nosso estômago. Ele, por conta própria, decide expelir o que não convém ao nosso corpo naquele momento.
Alguns rituais, na maioria tribais, xamânicos e coisas do gênero, usam bebidas que acabam provocando o vômito do mal espiritual. Rancores, angústias acabam se convertendo em algo expelido pelo corpo.
Pela quantidade de sapos que já engoli na vida, a quantidade de excremento seria grande. Sei que algumas pessoas concordam comigo. Alguém já até me disse que está louco para vomitar umas verdades, não exatamente em palavras, para ver se fica livre das cólicas estomacais que o afligem hoje.
É isso, a gente acaba engolindo um bando de baboseira, que geralmente vêm de pessoas desocupadas e maldosas (nossa, isso está parecendo programa de auto-ajuda!), e precisa se livrar do mal que ficou impregnado.
Assim mesmo, eu engulo e preciso desengulir, vomitar. O duro é fazer isso na prática. Para mim, falar horas a fio é um dos meios, escrever quase que resolve, o resto o estômago processa mal digerindo e o intestino expele definitivamente.