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Terça-feira, Maio 31, 2005


Goyaz

Uma pacata cidade de interior, Goyaz (ou Goiás Velho, como preferir) faz parte do patrimônio histórico da humanidade como mais uma referência do ciclo do ouro no Brasil.
Não é uma cidade muito rica, a exemplo de Pirenópolis, que é do mesmo período e também no estado de Goiás, nem tem tantas igrejas como as cidades do mesmo período localizadas em Minas Gerais, mas é um agradável ponto de turismo nesse país tão grande e cheio de surpresas.
Uma vista maravilhosa do por do sol na igreja de Santa Bárbara, uma visita à casa da poetisa Cora Coralina, um agradável almoço na praça do coreto, peixe à goyá, delícias para o descanso do corpo e da alma.
Um texto romântico, até meio cafona, mas acredito que condizente com o clima da cidade.
A única coisa que sinto é não ter ficado para o festival de cinema, o FICA, que começou um dia depois de nossa saída. A cidade deve estar bombando. E além de tudo com uma exposição de um amigo meu de Tocantins, que começa hoje também.


Domingo, Maio 22, 2005


Júpiter Maçã

Uma noite de sábado e pouca esperança de que ela fosse realmente boa. A esperança leve vinha de um músico gaúcho que eu tinha ouvido algumas vezes numa rádio de sampa e que tinha gostado bastante. O tal ia tocar na cidade e resolvi conferir.
Depois de tantas experiências frustrantes pela noite desta cidade, e depois de experar um bando de looser manos tocarem, rolou o melhor show nacional que vi neste ano (além do Naná Vasconcelos, é claro): Júpiter Maçã.
O show começou com a Marchinha Psicótica do Dr. Soup, uma música que, como ela própria diz, vai ser consagrada como cult underground e depois de vinte anos vai ser revisitada e virar hit nacional.
Muito bom. Músicas como Miss Lexotan e Síndrome de Pânico, clássicos do passado e do futuro, foram momentos de pura diversão consciente. Não aguento mais essa dor de cotovelo que assumiu o rock. Parece um bando de breganejo tocando guitarra.
Para encerrar a noite fiquei pensando que estava a fim de ir para algum outro lugar...

Um Lugar Do Caralho
Composição: Jupiter Maçã

Eu preciso encontrar
Um lugar legal pra mim dançar
E me descabelar
Tem que ter um som legal
Tem que ter gente legal
E ter, cerveja barata
Um lugar onde as pessoas sejam mesmo afute
Um lugar onde as pessoas sejam loucas e super chapadas
Um lugar do caralho
Sozinho pelas ruas de São Paulo eu quero achar alguém pra mim
Um alguém tipo assim:
Que goste de beber e falar,
Lsd queira tomar e curta
Syd Barrett e os beatles
Um lugar e um alguém que tornarão-me mais feliz
Um lugar onde as pessoas sejam loucas e super chapadas
Um lugar do caralho
Um lugar do caralho
Sozinho pelas ruas de São Paulo eu quero achar alguém pra mim
Um alguém tipo assim:
Que goste de beber e falar,
Lsd queira tomar e curta
Syd Barrett e os beatles
Um lugar e um alguém que tornarão-me mais feliz
Um lugar onde as pessoas sejam loucas e super chapadas
Um lugar do caralho
Lugar do caralho


Sexta-feira, Maio 20, 2005


Novos filmes

Niguém Suporta a Glória - Na década de 70, em meio ao panorama audiovisual brasileiro, explode Darlene Glória, atriz presente em vários filmes da década, incluindo os aclamados: "Terra em Transe" e "São Paulo - Sociedade Anônima". Protagonista de uma das obras mais aplaudidas de nossa história cinematográfica: "Toda Nudez Será Castigada", texto baseado na obra de Nelson Rodrigues, dirigido por Arnaldo Jabor, obra que recebeu o Urso de Ouro em Berlin, Darlene, abandonou a sua carreira no auge da fama. Ninguém Suporta a Glória, nada mais é que um resgate e uma homenagem em curta duração de uma parte de nossa história audiovisual.

Sexo com objetos inanimados - Você pega meio quilo de fígado cru, põe dentro de um copo americano, coloca um ovo pra dar liga e já era.

Meow - Um gato esfomeado fica sem leite, e é convencido a tomar um certo refrigerante. Será ele mais uma vítima da globalização? Terá ele salvação?

Cego e Amigo Gedeão à Beira da Estrada - Como prova de que reconhece os carros pelo som do motor, um cego conta uma história pra lá de inusitada.

Urubucamelô - Ulisses ingressa no concorrido mercado da economia informal vendendo miniaturas de super-heróis. Depois que ele perde tudo, inicia sua peregrinação pela cidade em direção à periferia. Vai parar no lixão, onde convive com os urubus. Come alimentos podres, entra em transe e transforma-se no Urubucamelô, um super-herói com os super-poderes dos urubus.


Quinta-feira, Maio 19, 2005


Trecho Axelrod (da proporção), de Tu não te moves de ti (texto de Hilda Hilst)

foi isso que pensei, andar um pouco enquanto o trem, olhe, acenderam as luzes, podemos ver o trem de longe iluminado.

Esguio, de passadas lentas, a nuca magra, o olhar é de um cinzento alagado, tenso de ombro e omoplata, discorre pausado de topografias, que à nossa frente, esta, se parece a outras que já viu mas não se lembra onde, que viu tão pouco de tudo e que por isso deveria lembrar-se desse pouco onde, olhe ali, há queimadas, se não vou me cansar até o pequeno topo, não não, imagine eu digo, também nem tanto, quarenta e dois anos ainda suportam um passeio na tarde, e há esse frescor, esse caimento, o cheiro dos abetos. Como? O cheiro desses verdes, ah sim, parecem estranhos, o mundo também, a forma das coisas, é um gavião lá no alto? Sim, pode ser, e me diz que nào quis dizer que eu lhe parecia velho, que nem pensou nisso quando perguntou se eu não cansaria até o pequeno topo, digo que não me importo com esses luxos da idade, que aos vinte temos muitas certezas e depois só dúvidas.

certeza de nada eu tenho

exceção. Aos vinte pontifiquei, tinha um orgulho danado, um visual pretensamente sábio

como?

discorria claro sobre as coisas, pensava que via

o senhor é professor?

sim, História

Apressado me interrompe, entre eu e ele um espêsso, porque me interrompe? entre eu e ele uns afastados, parece desejar chegar ao topo, sim porque deve ser bonito ver o trem lá embaixo iluminado, da História diz que não sabe nada, da sua própria estória sim, começa a correr como se me esquecesse, bem assim também não, correr na subida já maltrata coronárias coração, escuto-lhe a risada quinze passos acima, vejo-o de frente, longo, um nítido de sol numa das faces, não, não devo subir mais, o espesso desmanchando-se, está vivo à minha frente como se fosse o primeiro vivo visto, digo que o moço está tão vivo e tão adequado àquele espaço, tão singularmente colocado que

vamos, venha, ou desço para te ajudar?

Desço para te ajudar, íntimo, caloroso, estendeu os braços, amplo, lento pensando o passo vou subindo, o visível pensado me diz que há um medo se construindo em suor e vazios, o visível pensado não nomeia este medo, não deveria subir mas vou subindo, amasso com meus pés os tufos verdes, fixo-me nos sapatos, moles, úmidos, as meias molhadas, um ridículo Gólgota, sorrio, falta um, não deveriam ser três? Ele e os dois, e faltam cruzes, os dois viram-no subir lá do alto das cruzes? E faz falta a multidão, os lamentos, e a hora da subida não foi esta, subiu a que hora Jeshua? ao meio-dia? A hora, seis e meia a minha, ridiculez de subida, a camisa empapada, tenho cheiros? cheiro como um homem, aprumo-me, sou um home, tropeço, estou de bruços, de bruços pronto para ser usado, saqueado, ajustado à minha latinidade, esta sim, real, esta de bruços, as incontáveis infinitas cósmicas fornicações em toda a minha brasilidade, eu de bruços vilipendiado, mil duros no meu acósmico buraco, entregando tudo, meus ricos fundos de dentro, minha alma, ah muito conforme seo Silva, muitíssimo adequado tu de bruços, e no aparente arrotando grosso, chutando a bola, cantando, te chamam de bundeiro os ricos lá de fora seo Silva brasileiro, seo Macho Silva, hôhô hôhô enquanto fornicas bundeiramente as tuas mulheres cantando chutando a bola, que pepinão seo Silva na tua rodela, tuas pobres junturas se rompendo, entregando teu ferro, teu sangue, tua cabeça, amoitado, às apalpadelas, meio cego cedendo, cedendo sempre, ah Grande Saqueado, grande pobre macho saqueado, de bruços, de joelhos, há quanto tempo cedendo e disfarçando, vítima verde amarela, amado macho inteiro de bruços flexionado, de quatro, multiplicado de vazios, de ais, de multi-irracionais, boca de miséria, me exteriorizo grudado à minha História, ela me engolindo, eu engolido por todas as quimeras.

machucou-se

nem um pouco

Trêmulo me levantando, eu Axelrod me levantando porque o Grande Saqueado deixo ali de bruços, descola-te de mim, eu sozinho sou mínimo, alavancas do sonho, as impossíveis para te levantar, idéias palavras abstrações textos dialéticas, impossíveis alavancas de sonhos impossíveis, beijo-te as nádegas, brasilíssima fundura, teus gordos aparentes, beijo lívido tua escura saqueada rodela, te pranteio

me dá tua mão Axel

A mão do moço, pesada, curta, seca, não está em emoção, a palma toca a minha, molhada, a voz num tom de sacristia, baixa respeitosa, me dá tua mão, Axel, (comeu-me o sufixo, não importa) talvez me veja um pouco abade, abacial, tenho ares de, apesar da magreza, abade Axelrod, ali vai Axel o abade, amanhã ventrudo, tropeçou, vê só, me dá a tua mão, Axel, que tons, como se os turíbulos tivessem passado há um segundo, como se eu lhe tivesse dado escapulários, obrigado abade Axel, posso lhe beijar a mão? Vou me levantando inteiro abade, curvado vou me fazendo, tento chamar a velhice, fazer ares de, quero ser velhíssimo neste instante, e agachado correndo, num urro senil estaco. E numa cambalhota despenco aqui de cima, nos ares,

morrendo, deste lado do abismo.

(...)


Quarta-feira, Maio 11, 2005


Um papo meio deprê

Me sinto mal. O clima da cidade não ajuda. Nem o clima, nem mais ninguém. Pressão alta depois de muito tempo. Tive que tomar remédio e o escambau no pronto socorro. Fiquei com medo e me senti sozinha, muito só. Como fazia muito tempo que não sentia.
A fragilidade do meu corpo me assustou bastante. Meu estado não chega a ser grave, mas requer alguns cuidados. Nada que inviabilize a vida, mas inviabiliza uma rotina social fora de casa. Estou bem cansada e o corpo não reage mais como antigamente. Sinto o peso da idade.

...

Sonhei que tinha sido condenada à morte. Seria enforcada nesta manhã, eu e mais alguns, líderes de um movimento qualquer, não me lembro qual a causa. Sei que eu era a primeira da fila. Subi no cadafalso, colocaram a corda no meu pescoço e fiquei pendurada, senti a dor e o atrito do laço. Neste momento a corda foi cortada e comecei minha fuga. Mas não havia escapatória e eu estava tão cansada...
Daí eu acordo. O susto e o pensamento inevitável sobre a morte. Sei que é o fim de todos, mas me pareceu tão perto. Assustador.


Segunda-feira, Maio 09, 2005


O princípio da loucura

A constância de surtos emocionais que tenho percebido ultimamente estão me deixando realmente preocupada.
Sei que passo, eu mesma, por este processo de vez em quando. Mas não consigo achar normal ver pessoas a minha volta com um comportamento visivelmente auto-destrutivo e querendo aparentar que na verdade "tudo está ótimo".
O status, a fama, a grana, este tipo de coisa pode destruir a vida da gente, basta permitir. Fico preocupada, acabo abalada emocionalmente eu também.
Sei que é difícil o caminho para a felicidade, que passa por muito sacrifício também. Parece antagônico afirmar que a felicidade possa vir de alguns sacrifícios, só que não é. Todo mundo sabe que quando se escolhe um caminho é preciso abdicar dos outros. Quando se decide viver para satisfazer aos desejos mais íntimos, aqueles que se referem a realizações grandes, proveitosas para si e para os outros, não se pode mais viver o caminho das coisas fáceis.
É sempre assim. Para ser feliz é preciso encarar os próprios medos, traumas e relações, só assim é possível se conhecer tão profundamente a ponto de saber o que seria mais realizador na própria vida. Uma superação constante de crises, mas que nos façam mais fortes e satisfeitos plenamente.
Vejo a vida de pessoas por quem tenho tanto carinho amarradas num ciclo vicioso da alegria fácil e das relações superficiais, profundamente angustiados, deprimidos. Seu ar desesperado me atinge de vez em quando e tenho, mesmo sem querer, meu momento de melancolia profunda.
Eu me esforço para ter uma vida que realmente me satisfaça, sem usar muletas sociais. O ciclo da fama me angustia profundamente, as disputas para ver quem é o melhor num lugar qualquer sempre me desmotiva. Não é fácil e nem sempre estou alegre, mas busco a sinceridade (não aquela hipócrita do que ofende com a desculpa de ser honesto).
Entro agora numa onda intimista, mas é porque o grande número de pessoas cronicamente infelizes com as quais tenho tido contato está realmente me afetando. Estou realmente preocupada com o rumo que a vida no ambiente privado tem tomado.
Pareço pessimista, mas não é isso, apenas não gosto de ver pessoas jogando sua vida no lixo. Apesar disso é grande também o número de pessoas que optam por grandes mudanças, outro dia mesmo estava falando sobre meus amigos que se casaram ou que vão se casar. Muita gente mudando de cidade...
Bem, nem tudo está perdido.