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Sábado, Janeiro 28, 2006


Aperitivo

Do Sul o gostinho de paisagens novas. Disponíveis pra quem quiser dar uma olhada em Veja (no multiply). Vai lá pra ver. Vai.


Quarta-feira, Janeiro 25, 2006


Sonho ruim

Sonhei com a bruxa do oeste e acordei com um gosto ruim na boca. Os fantamas são assim, gostam de ficar assombrando, mesmo quando a gente se esforça em se livrar deles.
A melhor solução é aprender a conviver com eles. Os fantamas são bons de assustar, mas não podem matar. Pelo menos acho que não. A gente tem que aprender a lidar com o medo sem ficar paralizado.
Que besteira. Isso é só sensaçãozinha de quando a gente acaba de acordar. Daqui a pouco passa.


Domingo, Janeiro 22, 2006


Movimento retilíneo

Ainda estou indo. A vontade de voltar é quase nenhuma. Sei que ela vai aparecer, mas este momento não é agora. Agora é ir e conhecer o antes somente sabido. Ou comentado por alguém interessante. Vamos lá, que o Sul é bom às pampas.


Segunda-feira, Janeiro 09, 2006


O que você vai ser quando crescer?

Essa é uma pergunta que toda criança tem que responder pelo menos uma vez na vida e eu não pensava no futuro tanto assim para ter uma resposta real para fornecer quando consultada.
Lembro que meus parentes sempre perguntavam, naquelas irritantes reuniões do tipo "o meu é melhor que o seu". Eu sempre dizia que queria ser professora. Era a profissão da minha mãe e era o mais fácil a se dizer, além de fazer aquele agrado em casa. Só que eu nunca pensei nisso de verdade.
Numa das vezes que me perguntaram, foi um daqueles tios com mania de doença, que me deprimiam o domingo, que tinha começado, invariavelmente, com uma visita ao cemitério da Vila Formosa, o maior da América Latina, respondi novamente o de sempre, mas pensei algo totalmente diferente.
Eu era tímida, ou intimidada, e adorava pessoas que se expressavam livremente. Eu sou de um tempo em que criança não podia falar palavrão sem levar uma lição de moral demorada. Bem, no dia em que esse meu tio decidiu perguntar pela quinquagésima vez eu pensei: eu quero ser prostituta ou lésbica.
Devia ter uns cinco anos na época, tinha acabado de aprender a ler. Nem sabia o que era uma prostituta ou uma lésbica, mas entendia perfeitamente o impacto que isso teria na minha família. Eram palavras faladas baixinho, de canto de boca. O suficiente para eu gostar e a idéia permanecer firme na minha cabeça.
Nunca levei a cabo minha decisão precoce, mas fui capaz de causar os escândalos que ela carregava.


Sexta-feira, Janeiro 06, 2006


Caio

Para começar o ano, um trecho de Caio Fernando Abreu, Carta ao Zezim:

"Seguinte, das poucas linhas da tua carta, 12 frases terminam com ponto de interrogação. São, portanto, perguntas. Respondo a algumas. A solução, concordo, não está na temperança. Nunca esteve nem vai estar. Sempre achei que os dois tipos mais fascinantes de pessoas são as putas e os santos, e ambos são inteiramente destemperados, certo? Não há que abster-se: há que comer desse banquete. Zézim, ninguém te ensinará os caminhos. Ninguém me ensinará os caminhos. Ninguém nunca me ensinou caminho nenhum, nem a você, suspeito. Avanço às cegas. Não há caminhos a serem ensinados, nem aprendidos. Na verdade, não há caminhos. E lembrei duns versos dum poeta peruano (será Vallejo? não estou certo): 'Caminante, no hay camino. Pero el camino se hace ai anda'.

Mais: já pensei, sim, se Deus pifar. E pifará, pifará porque você diz 'Deus é minha última esperança'. Zézim, eu te quero tanto, não me ache insuportavelmente pretensioso dizendo essas coisas, mas ocê parece cabeça-dura demais. Zézim, não há última esperança, a não ser a morte. Quem procura não acha. É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado. Tudo é maya / ilusão. Ou samsara / círculo vicioso."